Tem chamado minha atenção o seguinte anúncio "professor bilíngue" em anúncios para professor de ensino fundamental 1, publicados em jornais de São Paulo.
Muito engraçado isso, muitas vezes o título é apenas "professor bilíngue" e só quando a gente entra no texto do anúncio, podemos perceber que, na verdade, quem é procurado é um professor de ensino fundamental, aquele profissional que ajuda a criança, entre outras coisas, a alfabetizar-se.
Sempre achei que o professor de fundamental 1 ou, o professor "da sala", como muitos diziam, merecia mais salário, mais benefícios, mais cuidado até mesmo no processo de seleção.
O professor que "pega pela mão" o aluno e o acompanha na questão do letramento me parece tão importante quanto um médico e até mais importante do que um advogado.
Cabe a esse professor ser o anfitrião na festa das letrinhas e assim como um anfitrião de festa, muitos dos convidados sentirão mais ou menos conforto na festa, a partir do acolhimento dele.
Alfabetização é um processo que desenvolverá uma habilidade da qual outras tantas serão derivadas e da qual outras tantas serão dependentes.
Inventar-se nas letras, assim como na música ou no esporte, requer tempo e tato. Muita gente acaba distante de um campo de existência de uma identidade, de um lugar para vir a ser, apenas porque não se sentiu a vontade, logo na entrada da festa.
E mesmo para quem se sente bem, é preciso que o anfitrião se apresente e mostre que a festa poderá ser bem aproveitada se o convidado, antes de lançar-se, observe os espaços existentes.
Então, o professor de fundamental 1 é alguém que eu sempre respeitei e sempre achei que deveria ser mais respeitado na sociedade. Esse professor sempre me pareceu o mais exigido e, injustamente, um dos menos bem pagos.
Esse professor deve ser muito bem preparado, pois vai lidar com crianças, vai supervisionar pessoas em um ambiente onde até mesmo uma borracha pode machucar alguém... e vai explicar, animar, orientar e, sim, tomar conta de crianças....filhos de outros! Trabalho sem fim!
Além de conhecer a fundo teorias de pedagogia e algumas de psicologia, esse professor precisará ser criativo e paciente. Esse professor vai dar aula de matemática, geografia, ciências e vai ajudar os alunos no letramento.
Então, muito me surpreende que se esteja exigindo, atualmente, uma outra habilidade desse professor: comunicar-se em uma língua estrangeira. É curioso que ninguém pare para questionar como esse profissional, que já tem tantas qualificações e tarefas, seria fluente em uma língua estrangeira a ponto de trabalhar as competências do ensino fundamental nessa língua e, não menos curioso, por quê ele deveria ser assim fluente na língua inglesa, no contexto do Brasil.
Nem vou entrar no mérito da língua estrangeira em si e do trabalho que dá tornar-se fluente (de verdade) em qualquer uma delas, enquanto se vive e se estuda no Brasil. Meu foco aqui é o professor de fundamental, que vem sendo chamado por anúncios de emprego de "professor bilíngue".
Isso não me parece fazer sentido e acho que não deveria mesmo fazer. Nem sei se isso é, na maioria dos casos, possível. Na minha humilde prática de trabalho, suspeito que não seja possível mesmo, pelo menos em um curto espaço de tempo....







