“Forevis young” (publicado no blog anterior, em 29.11.2011)
Li no jornal, dia desses, que em um dos episódios de “Entre
tapas e beijos”, um seriado brasileiro exibido na tv comercial, uma das personagens
centrais, ao desejar ter a frase “forever young” tatuada em seu corpo, acabaria
sendo tatuada com “forevis young”, por conta de um problema de visão do
tatuador. Infelizmente eu não tive a oportunidade de assistir o episódio, mas a
nota de jornal já me valeu o riso.
Meu comentário será sobre o simples fato da troca de
“forever young” por “forevis young”, já que eu não assisti o episódio do
seriado engraçado.
“Forevis Young” é o avesso do avesso do avesso. Tal qual uma
camisa que é dobrada pelo avesso, onde bem se pode ver toda a costura e onde o
bolso sobre o peito perde seu uso habitual (lugar comum) e passa a ser mais um
detalhe interno que não tem a mesma serventia que antes, apenas deixando mais
visível e mais declarado o avesso da camisa. Mas, a camisa ainda serve para
cobrir, descobrindo a si mesma e causando graça, estranhamento, desconforto ou
relaxamento. A camisa vestida pelo avesso, é “forevis young”.
Quem pode usá-la assim? Só mesmo quem sabe o que é uma
camisa e para o que ela serve e sabe, igualmente, o que ela representaria em um
mundo onde ela fosse destituída de sua habitual representação oficial, na
ironia de ser usada pelo avesso. A graça é fruto do contrário de seu uso que,
mesmo sendo contrário, ainda serve ao mesmo fim, agregando um valor a mais, o
da graça, como se a graça perguntasse: afinal, para o que serve uma camisa?
Quem tem menos de 25 anos talvez não se lembre ou nem mesmo
tenha ouvido falar do músico, humorista e comediante Antonio Carlos Bernardes
Gomes, de nome artístico Mussum,
carioca nascido em 7 de abril de 1941 e falecido em 29 de julho de 1994. Mussum fez parte do grupo “Os Trapalhões”,
liderado por Renato Aragão. Quem o viu na televisão, pode recordar-se de que
ele colocava uma terminação “is” ou “évis”em quase tudo o que falava. Palavras
como “forévis”, “problemis”, eram comuns na voz do Mussum. No contexto daquele
personagem, o “is” e o “évis” traziam uma significação a mais às palavras,
tornando-as as palavras do mundo, no mundo do Mussum, carregando nelas próprias
o mundo que ele representava.
O mundo do Mussum é uma verdadeira crônica de um subúrbio
carioca da época, onde um descendente afro, ou um ‘negão’ brasileiro, bem
humorado e piadista vive sua limitada possibilidade econômica e social ao lado
de seus amigos, driblando as dificuldades com uma mistura de malandragem e
inocência, do arquétipo brasileiro.
No youtube há vários momentos do Mussum, você pode vê-lo
falando com “is” e “évis” no final das palavras. Pois bem, voltemos ao
seriado... aí a moça tem um “forevis young” tatuado!!! Quer dizer que ela, que
iria carregar com ar de vanguarda, um “forever young”, agora vai ser o Mussum
de saias? Quem falaria “forevis young” afinal?
Genial! A problemática criada com a tatuagem ‘forevis young’
atesta a existência do “forevis”, como uma palavra que diz “forever” e ainda
diz mais! E quem pode dizê-la? Só quem sabe o que é “forever” e para o que ela
serve e sabe, igualmente, o que ela pode representar em um mundo de onde ela
não vem, onde ela pode ser destituída de sua representação oficial. A graça é
fruto da nova autoria de seu uso que, mesmo sendo de nova autoria ainda serve
ao mesmo fim, agregando um valor a mais, o da graça, como se a graça
perguntasse: afinal, para o que serve uma palavra?
“Forevis” não é “forever”, apenas a utiliza como ‘gancho’ e,
contendo seu sentido literal, não carrega sua significação no discurso, porque
diz além do sentido literal, marcando o falante no seu contexto próprio e
tornando evidente o reflexo impossível do “forever” em um “forevis” e o
espelhamento torto de quem fala o primeiro em quem fala o segundo. “Forevis” é
“forever” mudado, adaptado, distorcido e
recriado, na ironia do peso das línguas, deixando clara a dependência delas de
suas culturas e contextos. “Forevis” é a tradução “ Mussum-brasileira” de
“forever”. “Forevis” não é possível em nenhum outro lugar além do mundo do
Mussum, microcosmo de um contexto carioca específico, onde nós como brasileiros
também participamos, cariocas ou não.
A brincadeira do “Forevis Young” devolve, por instantes, a
cada palavra, sua verdadeira natureza vazia, onde tudo pode caber. “Forevis”
comprova o sentido de cada enunciado apenas como enunciação. É bem possível
que, a cada vez que “forevis” seja enunciado, exista mais construção de sentido
do que a cada vez que “forever” seja enunciado.
Essa brincadeira ainda deixa clara a questão do contexto, da
cultura, da tradução, da impossibilidade de significação exata e imediata de
uma mesma palavra em culturas e contextos diferentes. Até mesmo a questão do
tempo se coloca na problemática, pois o “forevis young” pode não soar o mesmo
para diferentes gerações.
“forevis young” é ótimo de se ouvir, na fronteira entre os
idiomas, onde se pode sentir o vácuo entre nós e as palavras e entre nós,
através das palavras. Felizmente, ao mesmo tempo, é ótimo pois nos faz sentir a
extensa gama de possibilidades entre nós e as palavras e entre nós, através das
palavras.

