Quem sou eu

Minha foto
Ensinando e aprendendo a língua inglesa como língua estrangeira e linguística.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

“Forevis young” (publicado no blog anterior, em 29.11.2011)




Li no jornal, dia desses, que em um dos episódios de “Entre tapas e beijos”, um seriado brasileiro exibido na tv comercial, uma das personagens centrais, ao desejar ter a frase “forever young” tatuada em seu corpo, acabaria sendo tatuada com “forevis young”, por conta de um problema de visão do tatuador. Infelizmente eu não tive a oportunidade de assistir o episódio, mas a nota de jornal já me valeu o riso.

Meu comentário será sobre o simples fato da troca de “forever young” por “forevis young”, já que eu não assisti o episódio do seriado engraçado.

“Forevis Young” é o avesso do avesso do avesso. Tal qual uma camisa que é dobrada pelo avesso, onde bem se pode ver toda a costura e onde o bolso sobre o peito perde seu uso habitual (lugar comum) e passa a ser mais um detalhe interno que não tem a mesma serventia que antes, apenas deixando mais visível e mais declarado o avesso da camisa. Mas, a camisa ainda serve para cobrir, descobrindo a si mesma e causando graça, estranhamento, desconforto ou relaxamento. A camisa vestida pelo avesso, é “forevis young”.

Quem pode usá-la assim? Só mesmo quem sabe o que é uma camisa e para o que ela serve e sabe, igualmente, o que ela representaria em um mundo onde ela fosse destituída de sua habitual representação oficial, na ironia de ser usada pelo avesso. A graça é fruto do contrário de seu uso que, mesmo sendo contrário, ainda serve ao mesmo fim, agregando um valor a mais, o da graça, como se a graça perguntasse: afinal, para o que serve uma camisa?

Quem tem menos de 25 anos talvez não se lembre ou nem mesmo tenha ouvido falar do músico, humorista e comediante Antonio Carlos Bernardes Gomes, de nome artístico Mussum, carioca nascido em 7 de abril de 1941 e falecido em 29 de julho de 1994.  Mussum fez parte do grupo “Os Trapalhões”, liderado por Renato Aragão. Quem o viu na televisão, pode recordar-se de que ele colocava uma terminação “is” ou “évis”em quase tudo o que falava. Palavras como “forévis”, “problemis”, eram comuns na voz do Mussum. No contexto daquele personagem, o “is” e o “évis” traziam uma significação a mais às palavras, tornando-as as palavras do mundo, no mundo do Mussum, carregando nelas próprias o mundo que ele representava.

O mundo do Mussum é uma verdadeira crônica de um subúrbio carioca da época, onde um descendente afro, ou um ‘negão’ brasileiro, bem humorado e piadista vive sua limitada possibilidade econômica e social ao lado de seus amigos, driblando as dificuldades com uma mistura de malandragem e inocência, do arquétipo brasileiro.

No youtube há vários momentos do Mussum, você pode vê-lo falando com “is” e “évis” no final das palavras. Pois bem, voltemos ao seriado... aí a moça tem um “forevis young” tatuado!!! Quer dizer que ela, que iria carregar com ar de vanguarda, um “forever young”, agora vai ser o Mussum de saias? Quem falaria “forevis young” afinal?

Genial! A problemática criada com a tatuagem ‘forevis young’ atesta a existência do “forevis”, como uma palavra que diz “forever” e ainda diz mais! E quem pode dizê-la? Só quem sabe o que é “forever” e para o que ela serve e sabe, igualmente, o que ela pode representar em um mundo de onde ela não vem, onde ela pode ser destituída de sua representação oficial. A graça é fruto da nova autoria de seu uso que, mesmo sendo de nova autoria ainda serve ao mesmo fim, agregando um valor a mais, o da graça, como se a graça perguntasse: afinal, para o que serve uma palavra?

“Forevis” não é “forever”, apenas a utiliza como ‘gancho’ e, contendo seu sentido literal, não carrega sua significação no discurso, porque diz além do sentido literal, marcando o falante no seu contexto próprio e tornando evidente o reflexo impossível do “forever” em um “forevis” e o espelhamento torto de quem fala o primeiro em quem fala o segundo. “Forevis” é “forever”  mudado, adaptado, distorcido e recriado, na ironia do peso das línguas, deixando clara a dependência delas de suas culturas e contextos. “Forevis” é a tradução “ Mussum-brasileira” de “forever”. “Forevis” não é possível em nenhum outro lugar além do mundo do Mussum, microcosmo de um contexto carioca específico, onde nós como brasileiros também participamos, cariocas ou não.

A brincadeira do “Forevis Young” devolve, por instantes, a cada palavra, sua verdadeira natureza vazia, onde tudo pode caber. “Forevis” comprova o sentido de cada enunciado apenas como enunciação. É bem possível que, a cada vez que “forevis” seja enunciado, exista mais construção de sentido do que a cada vez que “forever” seja enunciado.

Essa brincadeira ainda deixa clara a questão do contexto, da cultura, da tradução, da impossibilidade de significação exata e imediata de uma mesma palavra em culturas e contextos diferentes. Até mesmo a questão do tempo se coloca na problemática, pois o “forevis young” pode não soar o mesmo para diferentes gerações.

“forevis young” é ótimo de se ouvir, na fronteira entre os idiomas, onde se pode sentir o vácuo entre nós e as palavras e entre nós, através das palavras. Felizmente, ao mesmo tempo, é ótimo pois nos faz sentir a extensa gama de possibilidades entre nós e as palavras e entre nós, através das palavras.








Nenhum comentário:

Postar um comentário