Há uns dias atrás eu fui a um pequeno mercado, desses que
estão no bairro há anos e não são super, são os normais, como nós, os
moradores. Fui até o mercado comprar nem lembro mais o que, uma latinha ou
garrafa de algo. Importante dizer que o mercado fica num bairro de São Paulo
que, apesar de estar na zona leste (popularmente sinônimo de periferia, para os
paulistanos), não é periferia, nem de leve, eu diria.
Tatuapé é um bairro recheado de prédios novos de alto
padrão, tem duas estações de metrô, três shopping centers, mais de quatro
colégios particulares de prestígio e um abundante comércio local, onde figuram,
pomposamente, lojas de carros importados e restaurantes variados com serviço à
la carte. Os residentes são ou antigos moradores, descendentes de portugueses e
espanhóis em sua maioria, ou os “novos ricos”. O índice de renda per capita no
pedaço que se estende da marginal Tietê ao norte, até a avenida Regente Feijó,
ao sul e da avenida Salim Farah Maluf a oeste até a Avenida Aricanduva, a
leste, deve ser alto.
Há, é claro, alguma divisão interna dentro do bairro, como
há na maioria dos bairros paulistanos. Assim, a região que beira a marginal
Tietê ostenta menos riqueza do que a região que beira a avenida Regente Feijó,
conhecida como Jardim Anália Franco. Igualmente, a região que beira a avenida
Salim Farah Maluf é mais residencial e mais urbanizada do que a região que
beira a Avenida Aricanduva.
Mas, o que interessa é que o mercadinho, opa, o mercado em
que eu fui adquirir meu produto fica na parte sul da região central do bairro,
há algumas quadras do prestigioso Jardim Anália Franco. Região majoritariamente
residencial, arborizada, com praças e prédios novos que guardam apartamentos de
1 por andar com 4 suítes e, claro, terraço gourmet.
Dado o contexto espacial, social e econômico, será mais
fácil desenrolar o que deve seguir. Ao encaminhar-me ao caixa para pagar meu
produto, um dos funcionários do local me acompanhou, levando a garrafa pesada
e, ao chegar ao caixa, depositou a garrafa na esteira rolante. Eu agradeci a
gentileza com um “muito obrigada” e ele respondeu “Thank you”.
A cliente que já se encontrava pagando as compras, na minha
frente, esboçou um sorriso, olhou o rapaz, olhou para mim, olhou para a
funcionária do caixa e exclamou em alto e feliz tom: “que chique”.
E agora eu pergunto: “o que fazer diante dessa afirmação?”
Diante do silêncio da tela do computador, que só gosta de fazer eco ao silêncio
que outros me impõe, eu mesma respondo: “Nada, aprecie a paisagem com
moderação”
Foi o que fiz, apreciei a paisagem e sorri, porque, afinal
de contas, a cliente estava tentando elogiar o funcionário. Mesmo que o caminho
para o inferno seja, talvez, asfaltado com boas intenções, não era o caso, alí,
naquele momento. Acreditei que o elogio valia ser endossado e calei, sorri,
apreciei com moderação.
Vamos lá, por partes. Para quem conhece o código da língua
inglesa, sabe que uma das possíveis réplicas ao “muito obrigado”, em inglês
“thank you”, seria o “you are welcome”. Portanto, se a intenção dele era
produzir uma réplica, deveria ter dito “you are welcome” ou alguma outra frase
que equivale a essa no contexto (not at all, don´t mention it...) Caso ele
quisesse apenas enfatizar que eu é que estava fazendo um favor a ele (o que eu
não acredito que tenha sido), ele poderia ter dito “thank you”, com tonacidade
no “you”, algo que ele não fez. Isso confere, meus colegas de profissão? Sim, confere, eu sei. Seguindo adiante....
O que realmente me chamou a atenção no episódio não foi o
“thank you” do funcionário, mas o “que chique” da cliente. De uma tacada só e
com apenas duas palavras, ela acertou no alvo do problema que ronda a língua
inglesa neste lindo país ensolarado, ao sul do equador.
Falar inglês é chique. Mesmo que moremos no Tatuapé, mesmo
que estejamos em 2015. Ou seja, falar inglês continua sendo chique e continua
sendo uma mágica. Falar inglês é ter um poder que emana beleza, sofisticação.
Posso ser sincera? Eu não esperava por essa alí, no Tatuapé. Não esperava por
essa reação de admiração e respeito a um pequeno enunciado feito em inglês e,
ainda por cima, de forma equivocada.
A língua inglesa, vista assim, é um sintoma. Sintoma de que
os brasileiros não aprendem inglês na escola, apesar da obrigatoriedade da
disciplina na grade curricular do ensino básico. Sintoma de que os brasileiros
não aprendem inglês nem mesmo nas inúmeras escolas de idiomas que se espalham
por bairros endinheirados, como o Tatuapé, tal qual uma virose. Sintoma de que
a língua inglesa carrega essa marca de poder e beleza, como se fosse uma língua
apenas de nobres, ricos e poderosos. Sintoma de que falar inglês no Brasil é
chique justamente porque soa como um código que a maioria não decifra e entende
como uma “sabedoria a mais”. Sintoma de que a língua carrega mais do que diz,
pode mais do que se supõe. Sintoma claríssimo de que inglês, no Brasil, é língua
estrangeira e não segunda língua, como quer a propaganda das várias escolinhas
bilíngues que pipocam em São Paulo, inclusive, no Tatuapé.
Sabemos, quero dizer, sabem aqueles que vêem a língua, qualquer que seja ela, para além do simples código verbal, que todas as línguas manifestam sempre sintomas, na criação de efeitos de sentidos entre os falantes e ouvintes da língua. Não há neutralidade na língua. Mas, no caso do inglês, no Brasil, parece haver um excesso de sintomas...
Como professora de inglês, a língua inglesa como um grupo de sintomas tão forte me deixa triste. Tenho vontade de ir ao bar e pedir ao garçom, além
de seus ouvidos, “inglês, por favor, sem gelo e sem açúcar.”
