Quem sou eu
- M.J.
- Ensinando e aprendendo a língua inglesa como língua estrangeira e linguística.
sábado, 14 de junho de 2014
"amanhã você não precisa vim"
Dia desses, numa sexta feira, enquanto eu estava na fila do banco, observei uma cena que me fez pensar em língua, norma culta, norma coloquial, erro e gerações. Enfim, a cena me fez pensar na questão língua e seres humanos e seres humanos no tempo e no espaço, portanto língua no tempo e no espaço, também.
Ao meu lado esquerdo, um rapaz no caixa atendia um senhor de cabelos brancos, não vou nem dar palpite sobre a idade do senhor, pois posso errar, mas diria que ele é da "geração do meu pai". O que me faz liga-lo a geração do meu pai é muito mais o que ele disse e como disse do que os cabelos brancos e o corpo mostrando as marcas da travessia nessa vida.
Lá estava o senhorzinho, dobrando seu boleto já pago e batendo com o dedo indicador no vidro que separa o caixa do cliente. Bateu e foi atendido pelo olhar do mocinho no caixa. Tendo então a atenção merecida, ele disparou:
"Vou te dar uma boa notícia: amanhã você não precisa vim"
O rapaz a quem se dirigia a piada sorriu e disse "que bom, então não venho".
Imediatamente senti carinho por aquele senhor, pois ele me fez lembrar de meu pai pelo mesmo tipo de brincadeira e pela mesma forma de faze-la, incluindo entoação e gestual. Pensei: "piada de geração". Bem, não sei se é piada de geração ou não, mas com certeza havia ali uma pretensa malandragem que hoje é facilmente identificada como inocência, pois o efeito do dito não é o mesmo que outrora, quando muitos "chefes de família" batiam cartão de ponto e sustentavam uma família inteira com apenas 1 salário...coisas de outrora, não é?
Pois bem, na sequência de meu sentimento de afeto pelo senhor, trazendo lembranças tão vivas do meu pai até mim, pensei no "vim" onde a norma culta colocaria "vir". Pensei no sentido do enunciado, que não havia sido deturpado em nada pela conjugação errada do verbo e pelo endossamento dos atores figurantes da cena, onde ouvia-se aquela conjugação. Sim, porque o senhorzinho fez a mesma piada para mais 03 funcionários no banco, enquanto rumava para a porta giratória. Enunciado proferido, enunciado entendido, enunciado comungado. Como dizer que o enunciado tinha um erro, se ele havia completado o ciclo inteiro de uma interação verbal bem sucedida?
O último participante daquele stand up feito em movimento foi o segurança, que respondeu ao senhorzinho: "ah, eu não preciso de vim, então não venho". Ciclo enriquecido, enunciado bem sucedido, provendo outro com o mesmo destino: ser na sua materialidade a voz de quem o diz. "De vim" está tão fora da norma culta quanto "vim" nesse enunciado e, portanto, poderia ser considerado um erro. Poderia.....mas não tenho certeza sobre isso.
Para o segurança, na naturalidade de sua réplica, para participar ativamente e simpaticamente do stand up do senhor, "de vim" soa tão natural e tão representativo de algum espaço no tempo quanto o "vim" do meu pai, pois meu pai falaria exatamente como o senhor. Portanto, como qualifica-los, caso isso fosse necessário? Pois é, ainda bem que ali, no banco, no meio da rotina da vida real, a qualificação do enunciado não era necessária. Mas a pergunta fica....
Mais ainda: caso eu fosse uma "gringa" no país e tivesse feito um curso de português antes de embarcar, talvez eu me perguntasse se meu curso havia me ensinado corretamente a conjugação dos verbos, ao ouvir o
"você não precisa vim" e talvez chegasse a conclusão de que o livro e o curso haviam mesmo me apresentado a língua de forma errada ao ouvir "não preciso de vim". Eu, como falante de português língua estrangeira poderia optar pelo "vim" ou "de vim" no lugar do "vir", afinal o falante nativo é a melhor fonte para realmente aprendermos língua estrangeira... ou não?
Bem, o nativo realmente interage na língua que lhe é materna, mas eu, sem a kilometragem dele, percorrida nesse idioma, pouco teria onde me apoiar caso eu só aprendesse a partir do que ouvisse. Claro, assim é com a língua materna. Mas, não com a estrangeira, sorry....
"Aviso aos navegantes" (como diriam as pessoas que nasceram no mesmo espaço tempo que eu):
língua materna é aquisição, língua estrangeira é aprendizado. Há um intervalo importante de tempo entre um processo e outro, o que os torna diferentes.
norma culta é uma referência e não uma prescrição linguística infalível que cria a interação verbal. Na verdade, a interação surgiu antes da norma e o movimento continua sendo esse.
contudo, a norma culta é ótima quando aplicada ao aprendizado de uma língua estrangeira, pois ela preenche toda a referência de espaço tempo que não temos, na língua do outro.
Brincar na língua é tão bom quanto brincar com ela, é o que me parece.
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